projectos
Mercado Público da Comenda
TELMO PISSARRA DE ABREU DA CRUZ, MAXIMINA MARIA VIEIRA DOS SANTOS ALMEIDA, PEDRO MIGUEL TOMÉ SOARES
Dec 14, 2009 - 11:26 AM
O lugar da Comenda, freguesia do concelho de Gavião situa-se no Alto Alentejo, numa zona ainda sob a influência da bacia hidrográfica do Tejo, com a consequente riqueza natural.
O lote destinado ao Mercado Público confina a Sul com a frente de rua, e nos restantes lados com lotes privados vizinhos.
A rua foi anteriormente alargada, rectificando fachadas, originalmente curvilíneas, tornando evidente a relação entre os dois largos principais da Comenda, criando assim uma “nova centralidade”.
Um mercado é um local de encontro dos seus utilizadores. Num contexto ainda semi-rural, esta é a característica mais importante, já que promove a manutenção de grupos sociais equilibrados e coesos, com forte sentido de identidade. Projectou-se por isso um mercado com acesso fácil e franco da população.
Foram criados dois corpos servidos por um pátio arborizado que se desenvolve de sul para norte, desde a rua de acesso ao limite do lote, seguindo a orientação das ruas principais.
A separação em dois corpos permitiu reduzir as zonas de circulação interiores e optimizar as opções construtivas nos dois corpos de alturas e programas distintos.
O corpo do mercado tem 5.10m de altura, desenvolve-se do lado poente do lote e protege o pátio do sol durante a tarde. O corpo a nascente, mais baixo, abriga a portaria, três lojas, uma cafetaria e esplanada.
Com o ajuste cuidado da escala da intervenção afirmou-se a natureza pública do equipamento, sobressaindo algo nas relações de maior proximidade, e camuflando-se entre o conjunto dos telhados das casas da Comenda quando visto de longe.
De forma a obter a melhor qualidade construtiva possível, optou-se por propor uma estrutura pré-fabricada, e sistemas de construção essencialmente secos.
A comparação de diferentes tipos de soluções tornou evidentes as vantagens da opção pela estrutura mista de betão e madeira lamelada, 152 toneladas mais leve que a solução totalmente em betão e 110 toneladas mais leve que a solução mista em betão e aço, acrescendo ainda o facto de ser possível de manejar todas as peças da estrutura sem recurso a gruas.
Simultaneamente o cálculo simplificado das emissões de CO2 confirmou a vantagem da presença da madeira na solução da estrutura, que “encaixa” na sua massa grandes quantidades de CO2 absorvidos da atmosfera durante o seu ciclo de vida. No total foram poupadas 32,8 toneladas de emissões de CO2 para a atmosfera quando comparada a solução escolhida com a alternativa em betão armado.
Num edifício pequeno, muito pouco equipado, ventilado naturalmente, cuidadosamente isolado em toda a periferia protegido do excesso de exposição solar durante o Verão, foi determinante a opção de diminuir as emissões de CO2 durante a sua construção, já que nesse breve tempo, se acumulavam a maior parte de todas as emissões de CO2 estimadas para o ciclo de vida útil do edifício.
O revestimento exterior em madeira é consequente com as opções construtivas da estrutura e encontra paralelo em muitas construções de apoio agrícola em todo o território português. Construções sempre simples, executadas com meios e recursos modestos, atributos normalmente ausentes da obra pública.
Todos os elementos estruturais são de madeira laminada de abeto, têm espessura constante de 65mm e alturas diversas. Os nós de ligação entre os diversos elementos são metálicos, ocultos dentro da espessura da própria madeira.
O tempo de projecto de todos os detalhes da estrutura de madeira foi de seis meses, o seu fabrico levou um mês e meio e a montagem no local foi executada numa semana.
O revestimento exterior é de madeira de ipê, que ganhará um tom cinza e veios prateados com o passar do tempo.
Não se trata de uma madeira originária de florestas dos países mais ricos do norte do hemisfério Norte como o abeto. É uma madeira tropical, muito densa e sem necessidade de qualquer acabamento, naturalmente resistente a insectos, fungos e fogo.
As florestas tropicais também são recursos naturais cuja exploração deve ser permitida aos países equatoriais, menos ricos. Já desde 1986, dentro do quadro da Organização Internacional das Madeiras Tropicais, criada sob os auspícios das Nações Unidas, vêm sendo desenvolvidas estratégias específicas de exploração sustentável e certificação de madeiras tropicais. A conservação de todas as florestas também depende da sua exploração.
Telmo Cruz + Maximina Almeida + Pedro Soares
